SURDEZ E LINGUAGEM - (LIBRAS) - PESQUISA FEITAS


Surdez e Linguagem

Primeiramente vamos falar sobre o conceito de surdez. É bastante comum ouvirmos as pessoas se referirem ao surdo como "mudo", ou pior, "mudinho", surdo-mudo, deficiente auditivo, entre outros. A maioria dos surdos não apresenta nenhuma deficiência no aparelho fonador, ou seja, seus órgãos internos e externos da fala estão intactos, por isso não podem ser considerados como mudos.

Então por que alguns não falam quase nada ou fala diferente?

Todos os surdos vocalizam, algumas vezes produzem sons mais graves, outras vezes mais agudos, porém, por não ouvirem, não têm feedback auditivo2.
As pessoas da família ou outros ouvintes3, que convivem com a pessoa surda já estão mais acostumados com seu tipo vocal, por isso compreendem melhor o que ele diz.

A oralidade no surdo depende de alguns fatores, entre os quais estão o momento do aparecimento da surdez , que pode ser pré-lingual, peri-lingual ou pós lingual4; do grau de surdez, que varia de perda leve, perda moderada, perda severa, perda profunda e perda total5; e do estímulo da fala, que quanto mais precoce, maiores as possibilidades de uma criança com surdez  severa ou profunda por exemplo desenvolver a oralidade.

Mas, por que Surdo?

Os surdos não se definem como deficientes porque procuram enfatizar o aspecto cultural e linguístico da surdez e não a ausência de algo, no caso, da audição.
A existência de uma comunidade, que se identifica como grupo cultural, contribuiu para que os estudos sobre a surdez ganhassem espaço no campo dos estudos culturais. Antes disso, a surdez era exclusivamente objeto dos estudos médico- terapêuticos.

As Comunidades surdas e as Línguas de Sinais

Durante muito tempo e até algum tempo atrás, os surdos eram submetidos a duras e longas sessões de reabilitação da fala nas próprias escolas de surdos, cujo objetivo era transformar esses alunos num modelo mais próximo possível ao ouvinte.

A língua de sinais foi proibida nas escolas de surdos no final do século XIX e por quase cem anos, pois, muitos estudiosos da época acreditavam que a língua de sinais retardaria o desenvolvimento da fala e que contribuiria para a segregação dos surdos, excluindo-os da sociedade majoritária ouvinte.

Mas as línguas de sinais, que já estavam estruturadas em vários países e era utilizada pelos surdos para se comunicarem em outros contextos além do espaço escolar, sobreviveu, principalmente nas associações de surdos.

Até hoje as associações de surdos desempenham um papel fundamental de espaço de produção cultural e de disseminação da identidade e da cultura surda tendo a Língua de Sinais como elemento principal e determinante dessa cultura.
Em algumas cidades que não existem associações de surdos, eles costumam se reunir em locais específicos. Esses encontros podem ser em uma praça, um terminal urbano, um parque, entre outros.

Segundo Tomaz Tadeu da Silva, autor do livro "Identidade e Diferença" "a identidade e a diferença são criações sociais e culturais".(p.76)

A identidade surda é criada e fabricada pelas pessoas surdas no convívio com outros surdos falantes de uma mesma língua.

Os estudos surdos, que se definem como uma ramificação dos estudos culturais, buscam aprofundar as questões que evidenciam a existência da identidade e cultura surda, ainda que os surdos estejam inseridos no meio ouvinte.

As comunidades surdas, atualmente, se articulam, assim como outras minorias étnico-lingüístico-culturais, na luta por reconhecimento lingüístico e por direitos que garantam sua liberdade de expressão e acessibilidade, facilitando seu desenvolvimento como ser humano integral e o exercício de sua cidadania.

O final do século XX e início do século XXI no Brasil têm sido fortemente marcados por movimentos surdos, resultando em conquistas bastante significativas para as comunidades.

A foto abaixo ilustra a passeata feita pela comunidade surda de Niterói-RJ, no dia 26 de setembro de 2006.  A passeata com o tema "orgulho surdo" realizada no Dia Nacional dos Surdos, remete a sociedade a enxergar a surdez com outros olhos, associando-a a questão da diversidade e da diferença.

Oralismo

"O oralismo percebe a surdez como uma deficiência que deve ser minimizada através da estimulação auditiva". (GOLDFELD, 1997, p.31)

Talvez você pense: "Mas, que mal há em ensinar o surdo a falar a língua padrão do país, pois, se a maioria das pessoas utiliza esta língua será muito mais fácil o convívio dele na sociedade".

O problema da filosofia oralista não é este, mas o fato de não aceitar a língua de sinais como língua natural do surdo e impor a língua oral. É fazer da escola um espaço de reabilitação da fala, transformando-a em uma clínica fonoaudiológica.
O surdo tem direito de aprender a língua oral escrita ou falada, mas a escola deve garantir a ele, primeiramente um ambiente lingüístico rico, que favoreça o seu desenvolvimento integral (social, cognitivo, afetivo, psicomotor,etc) o que as longas sessões de terapia da fala não permitiam, trazendo sérios prejuízos ao desenvolvimento da criança surda.

Ainda hoje existem escolas que trabalham na perspectiva de ensino oralista, apoiando-se em experiências de casos isolados de surdos que conseguiram desenvolver a fala e se destacarem socialmente. Porém, mesmo nessas escolas não se pode proibir mais a língua de sinais, pois a legislação vigente não permite tal medida.

Comunicação Total

O próprio nome é bastante sugestivo, pois a Comunicação Total é um modelo de educação que utiliza todas as possíveis formas de comunicação como auxiliares no desenvolvimento da fala, inclusive gestos naturais das crianças surdas, alfabeto manual, leitura oro-facial1 e utilização de aparelhos auditivos.

Essa modalidade de educação foi desenvolvida em meados de 1960, após detectado o fracasso do oralismo puro em muitos sujeitos surdos.

Bilingüismo

A proposta educativa em questão entende que o bilinguismo2 consiste no ensino da língua oral e língua de sinais separadamente.

Dentro desta proposta de ensino a língua de sinais é reconhecida como língua materna, natural e primeira a ser adquirida pela criança surda e a língua portuguesa como uma segunda língua, considerando que por ser majoritária, a aquisição desta segunda língua é necessária para que o surdo tenha maior acesso às informações em geral e melhores condições de convivência no meio ouvinte.

Pedagogia do Surdo

Este modelo pedagógico é aspirado pela comunidade surda, que busca reafirmar sua identidade e emancipar-se das práticas ouvintistas3 na educação de surdos. Entende a escola como um espaço de vivências e experiências culturais compartilhadas entre os sujeitos surdos. A Língua de Sinais deve ser o principal veículo de comunicação e instrução dos surdos dentro da escola, sem interferências da língua oral. A história da educação dos surdos e das línguas de sinais passa a compor o conteúdo estruturante das aulas.

A Pedagogia do Surdo4 valoriza a presença do profissional surdo dentro da escola. A criança surda, desde a educação infantil, deve estar em contato constante com a Língua de Sinais, que, irá mediar o processo de desenvolvimento integral dessa criança.

Mediação Intercultural

O procedimento parte do conceito de que: "Todos nós nos localizamos em vocabulários culturais e, sem eles, não conseguimos produzir enunciações enquanto sujeitos culturais". ( Hall, 2003, p.83).

Nesse contexto, a cultura ouvinte não serve de parâmetro para o surdo, não regula mais as ações educativas nas escolas de surdos, mas o outro cultural é indispensável para afirmação da própria cultura dos sujeitos surdos.

Os três últimos modelos de educação descritos acima são mais recentes, mas todos valorizam a Língua de Sinais e consideram a necessidade de constituição das identidades surdas.

Ainda há outras considerações importantes sobre a Educação de Surdos, como a adoção da prática de letramento para surdos.

Surdez e "Letramento"

Alguns estudos têm apontado para a ineficácia dos métodos de alfabetização no ensino da língua escrita para surdos, pois eles requerem do alfabetizando a capacidade de codificação e decodificação de sons. Os surdos, por não ouvirem, têm dificuldades de fazer associações entre o som e a palavra escrita.

Diante dessas considerações, algumas escolas de surdos estão adotando a prática do "letramento'.

O "letramento" visa a uma leitura mais consciente dos textos, considerando o contexto em que se apresenta, e não a simples decodificação de sons e palavras isoladas.

Se os textos trouxerem apenas informações escritas, se apresentarão como grandes cartas enigmáticas, como comparativamente a leitura desse texto em árabe nos pareceria.

Porém o processo de letramento envolve a associação entre a linguagem verbal e não-verbal atribuindo sentidos à escrita, como no exemplo abaixo.

Você é capaz de decodificar essa escrita pela informação visual? O que antes parecia sem sentido ficou bem mais claro agora, não é?

A partir desse exemplo você pode ter uma noção melhor do que é o letramento para surdos.

As línguas de sinais começaram a ser objeto da linguística a partir dos estudos de William Stokoe, um lingüista escocês que vivia e trabalhava nos Estados Unidos. Em 1955, ele se tornou professor do Departamento de Inglês do Gallaudet College, hoje conhecida como Gallaudet University. Nessa época, ele ainda não conhecia a Língua de Sinais Americana (ASL). Ele teve de aprender alguns sinais, que ele usava ao mesmo tempo em que dava suas aulas em inglês, como a maioria dos outros professores. Stokoe, logo  percebeu que existia uma diferença entre a sinalização que ocorria quando um surdo se comunicava com outro, e a que ele usava como acompanhamento de palavras em inglês, durante suas aulas. A partir daí, ele começou a observar cuidadosamente a sinalização usada pelos surdos e demonstrou que aquela sinalização era uma língua autônoma, que seguia uma gramática própria.

Seus estudos revolucionaram a educação de surdos, contribuindo para o reconhecimento de várias línguas de sinais no mundo todo.

Alfabeto Manual ou Datilologia

É bastante comum ouvir uma pessoa dizer que conhece a língua de sinais, quando, na verdade o que conhecem é o alfabeto manual da língua de sinais.

Assim como as línguas de sinais, o alfabeto manual não é universal, cada língua de sinais tem seu próprio alfabeto.

O Alfabeto manual da Libras, teve sua origem ainda no Império. Em 1856, o conde francês Ernest Huet desembarcou no Rio de Janeiro com o alfabeto manual francês e alguns sinais. O material trazido pelo conde, que era surdo, foi adaptado e deu origem ao alfabeto manual da Libras, que temos hoje.

Fonologia das Línguas de Sinais

Vamos conhecer o esquema lingüístico proposto por Stokoe para a formação dos sinais. Ele propôs a decomposição dos sinais (ASL), em três parâmetros principais.

  • Configuração de mão (CM)
  • Ponto de articulação (PA)
  • Movimento da mão (M)
Outros pesquisadores contribuíram para a inclusão de mais dois parâmetros no estudo das línguas de sinais:

  • Orientação da mão (Or)
  • Expressões não-manuais (ENM)

ponto de articulação é o lugar onde o sinal é realizado, podendo ser em uma parte do corpo (bochecha, peito, queixo, etc.), ou no espaço neutro (na frente do corpo).

O estudo do movimento é bastante complexo, envolvem várias categorias, mas, para entendermos melhor, um movimento pode ser, quanto ao tipo, retilíneo, circular, semicircular, entre outros.

Orientação é a direção da palma da mão durante a realização do sinal.

As Expressões não -manuais caracterizam-se pelos movimentos da face, dos olhos, da cabeça ou do tronco.

A junção desses parâmetros dá origem a um sinal da língua de sinais.

A palavra obrigado, por exemplo,  em língua de sinais brasileira, é formada a partir dos seguintes parâmetros:

Na realidade, esta imagem que você vê não é do Brasil. Aqui no Brasil a mini-tela com o intérprete é bem menor.

Talvez você tenha ficado surpreso da primeira vez que viu, pois o trabalho de interpretação em Libras não era muito conhecido no Brasil até pouco tempo atrás.

Somente após o reconhecimento da Libras pela lei 10.436, as emissoras de TV começaram a tomar algumas providências para que o surdo também tivesse acesso à informação.

Mas quem é esse profissional?

O papel do Intérprete de Língua de Sinais, em nossa sociedade, muitas vezes é confundido com o do professor de surdos, principalmente no ambiente escolar. 
O intérprete de língua de sinais atua, mediando a comunicação entre a língua de sinais e as línguas orais em diferentes contextos:
  • Empresas
  • Hospitais
  • Órgãos Judiciais
  • Escolas
  • Igrejas
Tradução e Interpretação

Para entendermos melhor o trabalho do tradutor e intérprete de Língua de Sinais vamos esclarecer alguns conceitos.
  • Traduzir: transpor de uma para outra língua2.
  • Interpretar: Explicar, esclarecer, representar.
Em língua de sinais utilizamos o termo "tradução" quando há texto escrito envolvido. A tradução da escrita da língua oral para a língua de sinais é bastante utilizada no contexto escolar.

Ainda não é muito utilizada a tradução da escrita da Língua Portuguesa para a Escrita de Sinais, uma vez que essa última está em processo de estudo e desenvolvimento.

A interpretação de uma língua para a outra, envolve a transmissão de sentidos. Não é correto interpretar palavra por palavra, pois a estrutura das línguas diferem uma das outras.  Para uma interpretação mais fiel de uma língua, é necessário conhecer também a cultura dos povos que a utilizam, pois algumas expressões que existem em uma língua não existem em outras e precisam ser substituídas.

Em "A maneira de bem traduzir de uma língua para outra" (1540), Dolet estabeleceu cinco princípios para o tradutor:
  1. o tradutor deve entender perfeitamente o sentido e a matéria do autor a ser traduzido;
  2. o tradutor deve conhecer perfeitamente a língua do autor que ele traduz; e que ele seja igualmente excelente na língua na qual se propõe traduzir;
  3. o tradutor não deve traduzir palavra por palavra;
  4. o tradutor deve usar palavras de uso corrente;
  5. o tradutor deve observar a harmonia do discurso.